segunda-feira, 25 de junho de 2007

Renan Cepeda > Polícia no Morro

Primeiro ano da era Collor, 1990.
Pauta: bandidos assaltam agencia do BB na UFRJ e fogem para o morro do Timbau, do outro lado da Av. Brasil. Na fuga baleiam e matam um policial civil. Acompanhamos a polícia nas buscas aos bandidos no morro. Eu era foto-jornalista do Jornal do Brasil.
A equipe de polícia que subiu o morro era comandada pelo famoso delegado Elson Campello. Nesta época a polícia civil era retalhada em feudos, que controlavam, em áreas separadas da cidade, os negócios de contravenção, ora extorquindo, ora participando mesmo. A vida perdida do policial atingido pelos bandidos serviu de motivação aos colegas, que arrombavam e invadiam casas à procura dos criminosos no morro. Essas ações eram comumente violentas.
A foto mostra um policial saindo de uma das casas onde dois garotos brincavam com um gato.





Publicada no topo da primeira página, ela serviu como denúncia às truculências dos policiais. Era campanha eleitoral e o candidato ao governo do estado, Leonel Brizola, aproveitou o fato e a foto. Foi eleito.
Desde então a polícia civil não subiu nem violou residências nos morros.
Para mim foi mais um dia, mais uma ordinária aula de vida dura. Dura para os favelados e para mim também. Ainda mais que o editor de fotografia na época não gostava muito de mim. A foto serviu para que me firmasse em sua equipe.
Voltando à foto em si: durante a ação da polícia, que acompanhávamos, não houve reação dos bandidos da área. Os policiais entravam de casa em casa, num pente fino para achar os meliantes. Em frente a uma dessas casas havia dois meninos acariciando um gato branco. Um policial já havia entrado naquela residência. Então pedi para que os garotos ficassem justamente na porta, apostando que o policial teria que passar entre ou por cima dos meninos.
Havia mais dois fotógrafos fazendo a cobertura por outros jornais: Vidal da Trindade (O Dia) e Ferreirinha (O Povo). Os dois gostaram da idéia e então combinamos que não usaríamos a grande angular, pois havia recuo para uma 50mm, enquadrando toda a porta em vertical. Eu usava uma Nikon F-2, que com o motor-drive pesava uns 3kg. O fotômetro da câmera não funcionava, então arrisquei um 1/250 – f:8 na sobra, com luz refletida do sol no chão. O gato e os meninos posicionados, o polícia veio, parou diante da cena, olhou para a gente e decidiu passar entre os garotos.
O JB foi quem deu melhor a foto.
Na verdade, naquele dia da foto, quando cheguei na redação, coloquei os Tri-x's para revelar e já saí imediatamente para outra pauta: um portrait de uma atriz estrangeira. Era sexta-feira, dia de "pescoção", fotos para sábado, domingo e segunda.
Essa é a vida do foto-jornalista: de manhã uma perseguição policial, à tarde um portrait de uma francesa, à noite o futebol no Maracanã. Acorda-se no outro dia, com a coluna reclamando, sem se lembrar direito de como foi seu dia anterior.
No sábado, acordei cedo, tomei um táxi, peguei uma nova namorada em sua casa e fui para a rodoviária. A serra era onde preferia descansar da vida de notícias. Descemos em Friburgo, onde tinha um Rural Willys guardada numa garagem. Fui comprar mantimentos e chocolates para o frio do sítio. No supermercado, na fila do caixa, é que vi a pilha de JBs com a foto enorme cortando a primeira página.
Para minha namorada, a partir daquele instante, passei a ser muito mais que um adorável amante. Me tornei um herói, o que certamente acrescentou muito mais fervor àquela oportunidade.


Renan Cepeda > Carioca, nascido em 1966, começou a fotografar em preto e branco já com 11 anos de idade, profissionalizando-se em 1987. Sua grande escola foi a experiência no fotojornalismo. Colaborou para as maiores publicações do país, tais como Jornal do Brasil, Folha de São Paulo, Veja, Época, Isto É, Elle, Exame, entre muitas outras. Foi correspondente da agência francesa SIPA-Presse no Rio, de 1993 a 1995. Em 1996 fundou o “Arte de Portas Abertas” com outros artistas do bairro carioca de Sta. Teresa. Dedicando-se hoje integralmente à fotografia de arte, Renan Cepeda é reconhecido pelas pesquisas artísticas sobre técnicas fotográficas incomuns, como a fotografia infravermelha - que estuda desde 1991, elaborando a série “Invisíveis” – e a coleção “Pichações”, em que aplica processos de iluminação pontual sobre casas desabitadas, trabalho já premiado três vezes: International Agfa Photo Award em 2004; bolsa-prêmio da FUNDARPE - Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco e prêmio-aquisição no Salão de Santo André – SP, em 2005.
Contatos: 21 2508.8900 / 8606.6688
cepeda@terra.com.br - www.renancepeda.com

Um comentário:

Ricardo Drumond disse...

Legal a história e a foto. Melhor ainda porque ainda ganhou uma moral com a namorada.

mandou bem